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Ilustração: @guilherme.palacio.art, 2026
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Giovana Santos em Projeto Ensaios Estudante de Psicologia na Universidade de Santo Amaro. E-mail: sgiovana259@gmail.com. | Publicado em 26 de setembro de 2026

Giovana Santos
Estudante de Psicologia na Universidade de Santo Amaro. E-mail: sgiovana259@gmail.com.
26/09/2026 em Projeto Ensaios

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A ilusão da neutralidade: afeto e ética na formação do psicólogo sob a perspectiva psicanalítica

[Coautor: Alexsandro Nobres de Moura[1]]

A formação do psicólogo, à luz da psicanálise freudiana, não se esgota no domínio das técnicas, mas envolve a construção de uma escuta clínica sustentada pela implicação subjetiva do futuro profissional. Embora o ensino universitário frequentemente possa privilegiar conteúdos teóricos, instrumentos avaliativos e protocolos de intervenção, a clínica psicanalítica convoca algo que ultrapassa a dimensão técnica: ela exige do futuro profissional uma implicação subjetiva com o próprio desejo de escutar. Neste texto propõe-se uma breve reflexão acerca da neutralidade na formação do psicólogo, defendendo que a escuta clínica, na perspectiva psicanalítica, exige uma posição ética implicada e não um distanciamento afetivo. Ainda que fundamentado na tradição psicanalítica freudiana, este estudo recorre à reflexão de Jung para pensar a dimensão humana da clínica. Nesse sentido, Jung afirma:

A prática da medicina é e sempre foi uma arte, e o mesmo é verdadeiro para a prática da análise. Criação é a verdadeira arte, e a criação está além de todas as teorias. É por isso que eu digo para qualquer iniciante: conheça todas as teorias o melhor que você̂ puder, mas ponha-as de lado quando você̂ tocar o milagre da alma vivente. Nenhuma teoria, mas a sua própria individualidade criativa, é que irá decidir.[2]

É preciso reconhecer que, na tradição psicanalítica freudiana, a técnica possui um lugar estruturante. Freud ([1912] 2010) propõe que o analista mantenha uma escuta que não privilegie previamente determinados conteúdos da fala do paciente. Contudo, tais recomendações jamais significaram frieza emocional. Ao contrário, a neutralidade freudiana refere-se à suspensão de julgamentos morais e à não imposição dos valores do analista ao analisando. Trata-se de uma posição ética, e não de uma anestesia subjetiva.

Entretanto, ao longo da história da psicologia, consolidou-se certa leitura equivocada segundo a qual o bom profissional seria aquele que não se envolve e que se protege do afeto como forma de garantir objetividade. Essa perspectiva aproxima-se de um ideal científico positivista, no qual se pressupõe que o sujeito do conhecimento possa afastar sua própria subjetividade para observar o objeto de estudo de forma neutra e objetiva.

A psicanálise, contudo, subverte essa lógica. Desde Freud, o inconsciente do analista é compreendido como parte do processo analítico, de modo que ele não ocupa uma posição de observador externo, mas participa da cena transferencial. Essa participação torna-se particularmente evidente por meio da contratransferência, entendida não apenas como uma reação do analista ao paciente, mas como um importante instrumento para a compreensão da dinâmica inconsciente presente na relação analítica. Nesse sentido, Racker (1982) destaca que os sentimentos, fantasias e emoções mobilizados no analista podem constituir vias privilegiadas de acesso à experiência psíquica do analisando, desde que sejam reconhecidos e elaborados.

Nesse contexto, a expressão “ilusão da neutralidade” refere-se à crença de que o analista poderia ocupar uma posição completamente objetiva, eliminando as implicações de sua própria subjetividade e alcançando uma objetividade absoluta.

A compreensão desses limites da neutralidade torna-se fundamental na formação do psicólogo. Mais do que evitar envolvimentos inadequados, a clínica psicanalítica exige que o analista sustente uma presença ética e implicada, capaz de escutar para além do dito e acolher o sofrimento psíquico sem reduzi-lo a categorias previamente estabelecidas. Conforme Winnicott ([1965] 1983), o desenvolvimento emocional depende de um ambiente suficientemente bom, capaz de sustentar a constituição do self. O analista, nesse sentido, não é neutro como ausência, mas presente na sustentação da posição analítica, oferecendo as condições necessárias para que o processo transferencial possa se desenvolver.

A formação psicanalítica, portanto, não se esgota na graduação. Freud ([1919] 2010), ao discutir o ensino da psicanálise nas universidades, já alertava para a insuficiência do aprendizado meramente teórico. Diante disso, a  transmissão da psicanálise envolve análise pessoal, supervisão e estudo constante. A psicanálise não forma aplicadores de técnicas, mas sujeitos capazes de sustentar a escuta do inconsciente. Essa afirmação desloca o eixo da formação do “saber fazer” para o “saber escutar”.

A reflexão de Jung (1928), segundo a qual a prática clínica envolve uma dimensão criativa que ultrapassa o domínio exclusivo das teorias e das técnicas, permanece pertinente para pensar a dimensão humana da escuta clínica. Nesse sentido, o conhecimento técnico mostra-se necessário, mas insuficiente para sustentar o encontro com o sofrimento psíquico. A escuta analítica exige disponibilidade psíquica, elaboração subjetiva e responsabilidade ética. Tais exigências reforçam a necessidade de autocrítica na formação do psicólogo orientada pela psicanálise. Assim, torna-se necessário questionar os ideais de desempenho, produtividade e eficiência que atravessam a lógica universitária contemporânea, refletindo sobre seus efeitos na formação clínica e na compreensão do cuidado psicológico.

A clínica não se mede pela rapidez dos resultados, mas pela possibilidade de construção de sentido. A técnica, quando desvinculada da ética profissional e da responsabilidade clínica diante do sofrimento psíquico, transforma-se em instrumento vazio. Quando articulada à posição ética e à implicação subjetiva do analista, torna-se ferramenta potente de cuidado.

Criticar a ilusão da neutralidade como distanciamento afetivo não significa defender uma atuação baseada na identificação ou na fusão emocional com o paciente. Ao contrário, trata-se de sustentar uma posição que reconheça os afetos sem ser governada por eles. A neutralidade psicanalítica é ética porque favorece a manutenção da posição analítica, orientando o analista a reconhecer suas implicações subjetivas sem colocar suas próprias necessidades no centro do processo clínico. Ela protege o campo analítico, mas não elimina a humanidade do analista.

Nessa perspectiva , a formação psicanalítica implica reconhecer que o saber nunca é completo e que a escuta exige constante elaboração. É compreender que a técnica organiza o trabalho clínico, mas é a posição ética do analista que o sustenta.

Sustentar a escuta clínica, à luz da psicanálise, não implica abandonar a posição analítica, mas reconhecer que a escuta clínica ocorre entre sujeitos atravessados pelo inconsciente e pela transferência. A escuta clínica, portanto, não elimina a subjetividade do analista, mas exige sua constante elaboração ética no manejo da transferência e da contratransferência. Sob essa perspectiva, a formação torna-se um processo contínuo, no qual conhecimento técnico e implicação humana se articulam na sustentação ética da clínica.

Referências

FREUD, Sigmund. Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise (1912). In: FREUD, Sigmund. Obras completas. v. 10. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

FREUD, Sigmund. Sobre o ensino da psicanálise nas universidades (1919). In: FREUD, Sigmund. Obras completas. v. 14. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

JUNG, Carl Gustav. A prática da psicoterapia. Petrópolis: Vozes, 2011.

JUNG, Carl Gustav. Contributions to Analytical Psychology. London: Routledge & Kegan Paul, 1928.

RACKER, Heinrich. Estudos sobre técnica psicanalítica. Porto Alegre: Artes Médicas, 1982.

WINNICOTT, Donald W. O ambiente e os processos de maturação (1965). Porto Alegre: Artmed, 1983.

[Revisão de Khadija de Oliveira Moreira e Maria Eduarda Rodrigues. Revisão final e edição de Rosângela Chaves].


[1] Psicólogo, mestrando em Psicologia pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. E-mail: alexsandro.nobres@ufms.br.

[2] Trecho adaptado [tradução livre] de JUNG, Carl Gustav. Contributions to Analytical Psychology. London: Routledge & Kegan Paul, 1928, p. 361.

O artigo é o nono da nona edição do Projeto Ensaios, um projeto de divulgação filosófica coordenado pelo professor Weiny César Freitas Pinto, do curso de Filosofia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), em parceria com o site Ermira Cultura, que visa colocar em diálogo a produção acadêmica com a opinião pública por meio da publicação de ensaios. Até o dia 26 de dezembro, sempre aos sábados, serão publicados em Ermira textos de estudantes, pesquisadores e professores de diversos lugares do país, envolvendo diversas áreas do conhecimento, em diálogo com a filosofia. Confira os outros textos publicados nesta edição:

  1. O romance familiar no mito de Perseu,  de Ana Tércia Rosa Alves e Weiny César Freitas Pinto.
  2. Educação como mercadoria? Ciências Humanas em tempos de metodologia Steam,  de Bruna Mariane Gomes de Camargo, Juarez Moreno de Camargo e Silva e Pedro Damasceno Uchôas.
  3. Dizer ‘não’ é um direito? A diferença entre seguir a consciência e protestar, de Gabriel Filipe Rosa Alves e Tiago Koutchin.
  4. Sobre o direito de ir e vir, como mulher, de Maria Clara de Freitas Barcelos e Maíra de Souza Borba.
  5. Quando o desejo silencia: apagamento de si e suicídio entre universitários, de Tayna Schoeffel Rodrigues, Beatriz Gomes Cruz e Natasha Garcia Coelho.
  6. O fim do outro entre o toque das telas , de Carlos Busón Buesa e Weiny César Freitas Pinto.
  7. Travesti é substantivo coletivo: o que a cultura ballroom ensina sobre a vida, de Jolie Gregório Caetano e Jeferson Camargo Taborda.
  8. “Pensar com as mãos”, de Luiggi de Barros Cestari e Pedro Damasceno Uchôas.

Tag's: Carl Gustav Jung, Freud, neutralidade, psicanálise, psicologia

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