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Ilustração: @lele.arte, 2026
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Gabriel Luiz Campos Dalpiaz em Projeto Ensaios Mestrando em Filosofia pela UFMS. E-mail: gcamposdalpiaz@gmail.com | Publicado em 3 de outubro de 2026

Gabriel Luiz Campos Dalpiaz
Mestrando em Filosofia pela UFMS. E-mail: gcamposdalpiaz@gmail.com
03/10/2026 em Projeto Ensaios

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Pois o mesmo é pensar e ser

[Coautor: Vinícius Carvalho da Silva[1]]

O objetivo central deste artigo é, por meio de um questionamento, refletir a partir de um enunciado: “Pois o mesmo é pensar e ser” (Parmênides, 1951, p. 13). O trecho pertence ao poema Sobre a Natureza, do physikós Parmênides de Eleia (530-460 a.C.). Nesse ponto, tudo aquilo que pode ser pensado é, e todo ser pode ser pensado. Não se trata de reduzir o mundo a uma pura subjetividade, mas de evidenciar que a ordem cósmica e social tem uma estrutura racional; logo, por ser real, pode ser racionalizada, pois contém uma inteligibilidade própria.

Parmênides iniciou uma discussão ontológica sobre o ser, a despeito de Karl Popper considerá-lo sobretudo um cosmólogo, conferindo à filosofia um caráter mais racional do que propriamente empírico. Afirmar que O Ser é idêntico a si mesmo, eterno e imutável, o que, segundo Popper, pressupõe  o cosmos, um universo ordenado, unívoco, homogêneo e isotrópico, é conceber um mundo externo objetivo, independente de nós.

Assim, a corrente realista na filosofia  surgiu a partir do princípio de que a realidade existe independentemente da mente humana e não se reduz àquilo que se apresenta de imediato. Há diferença ontológica entre realidade e aparência. O exercício da filosofia consiste justamente em ultrapassar o nível fenomênico daquilo que experimentamos pelos sentidos, e buscar, intelectivamente, a natureza última da realidade. A investigação ontológica iniciada com o filósofo eleata não apenas afirmava o ser, mas colocava esse ser diante da razão humana.

Zenão de Eleia (490/485-430 a.C.), discípulo de Parmênides, desenvolveu o famoso paradoxo da distância finita composta por divisões infinitas. Tal paradoxo pode ser interpretado como uma representação da condição humana na busca pelo conhecimento absoluto, que avança por meio de consciências relativas, isto é, por recortes parciais da realidade. Esse posicionamento abre a discussão sobre a imobilidade do ser e os limites lógicos da razão.

Outro paradoxo atribuído ao iniciador da dialética, Zenão de Eleia, é o da flecha em voo. Embora a flecha aparentemente mova-se continuamente, isso se revela contraditório, pois sua ocupação, mesmo em movimento, indica uma localização exata e determinada no espaço, a qual exprime repouso, e não movimento (Hegel, 1955, p. 254).

O conceito de movimento não pode ser apreendido apenas pela determinação fixa de posições sucessivas. O que Zenão busca evidenciar é que a experiência sensível conduz a contradições racionais quando tenta explicar o movimento, indicando que o verdadeiro ser pertence ao plano inteligível.

Naturalmente, o leitor pode questionar o enunciado “Pois o mesmo é pensar e ser”, argumentando que, ao se pensar em um unicórnio, ele passaria a existir empiricamente. O que ocorre, porém, é que, ao pensar em um unicórnio, o sujeito está pensando em elementos existentes (chifre, cavalo, asas etc.), mas organizados de maneira distinta. O unicórnio consiste em um ente imaginário, ao passo que o ser verdadeiro é necessariamente real. Além disso, a associação entre o real e o físico, e entre o físico e o material, é enganosa e inconsistente. Evidentemente tudo o que é material é físico, e tudo o que é físico é real, mas disto não se segue o contrário. Existem entidades puramente abstratas desprovidas de fisicalidade e materialidade, e que, no entanto, impactam profundamente a realidade empírica.

Platão (428–347 a.C.), em seus diálogos, demonstra profundo respeito por Parmênides, além de revelar conhecimento de sua contribuição filosófica. É evidente, em Platão, a busca constante por superar as aparências sensíveis, afirmando que a busca da verdade constitui um processo de libertação por meio da prática virtuosa.

Porém, deve-se negar o hábito e as certezas sensíveis como formas de verdade sustentadas apenas por opiniões e dogmas. É necessário tensionar a razão ao máximo, superando suas antinomias, para reconciliar o ser, enquanto aquilo que é, com o pensamento, enquanto aquilo que pode ser conhecido. Desse modo, em Platão, o real encontra-se no mais alto grau de abstração.

Já a influência do realismo dos eleatas pode ser percebida no mundo moderno e contemporâneo. Diversas correntes científicas apoiam-se nas filosofias antigas para pensar seus métodos e, sobretudo, os limites da razão. René Descartes (1596-1650), por meio da afirmação “Penso, logo existo” (Cogito, ergo sum), conferiu ao pensamento o estatuto de instância fundamental da realidade: tudo parte dele, ao menos para conhecer e também duvidar, como a dúvida metódica (Descartes, 1996, p. 92).

Para Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831), a relação entre o racional e o real, expressa na fórmula “o que é racional é real e o que é real é racional” (Hegel, 1997, p. XXXVI) profere o desenvolvimento do espírito, que busca a adequação entre o conceito e o real concreto, assim como entre ser e pensar. O real passa a ser compreendido como a unidade mediada entre essência e manifestação sensível, buscando superar a forma abstrata destituída de conteúdo.

Alguns físicos-filósofos do século XX, como Einstein, Heisenberg, Bohr e Planck, entre outros, diante do impacto da Teoria da Relatividade Geral e da abertura epistemológica proporcionada pela mecânica quântica, buscaram evidenciar o real como o fundamento mais elementar de toda constituição física. Embora afirmem que a realidade é inteligível, reconhecem que sempre escapa às nossas mãos o seu conhecimento absoluto. O que conhecemos das leis são apenas feixes pertencentes a uma realidade maior e infinita, de maneira análoga, como os paradoxos de Zenão de Eleia. Conforme o seguinte pensamento de Einstein: “Mas a verdade de uma teoria nunca pode ser provada” (2026, p. 113).

Por fim, ainda assim, mesmo diante dos impasses decorrentes da relação desigual entre os fenômenos, os homens procuraram, entre acertos e equívocos, uma racionalidade demiúrgica para a compreensão da realidade, tecendo as suas próprias histórias homéricas por meio da equivalência entre ser e pensar.

Referências

DESCARTES, René. Discurso do método. In: Os pensadores. Descartes – Vida e obra. São Paulo: Nova Cultura, 1996, p. 61-128.

EINSTEIN, Albert. Indução e dedução na física. In: SILVA, Vinicius Carvalho da (Org.). Einstein e a busca pela unidade do real. Coleção: Filósofos Naturais. Tradução de Rafael Velloso. São Paulo: LF Editorial, 2025, p. 111-114.

HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Princípios da filosofia do direito. Tradução de Orlando Vitorino. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Lecciones sobre la historia de la filosofía. Tradução de Wenceslao Roces. Cidade do México: Fondo de Cultura Económica, 1955, V1.

PARMÊNIDES. Perì Phýseos [O Poema de Parmênides]. Tradução literal de Álvaro Vieira Pinto sobre o texto grego, segundo Mullach. In: Diretório Acadêmico da Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, Rio de Janeiro, mar. 1951, p. 12–16.

POPPER, Karl. O Mundo de Parmênides. Tradução de Roberto Leal Ferreira. São Paulo: Editora Unesp, 2014.

[Revisão de Khadija de Oliveira Moreira e Maria Eduarda Rodrigues. Revisão final e edição de Rosângela Chaves]


[1] Doutor em Filosofia. Professor do PPgFil-UFMS. E-mail: vinicius_c_silva@ufms.br

O artigo é o décimo da nona edição do Projeto Ensaios, um projeto de divulgação filosófica coordenado pelo professor Weiny César Freitas Pinto, do curso de Filosofia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), em parceria com o site Ermira Cultura, que visa colocar em diálogo a produção acadêmica com a opinião pública por meio da publicação de ensaios. Até o dia 26 de dezembro, sempre aos sábados, serão publicados em Ermira textos de estudantes, pesquisadores e professores de diversos lugares do país, envolvendo diversas áreas do conhecimento, em diálogo com a filosofia. Confira os outros textos publicados nesta edição:

  1. O romance familiar no mito de Perseu,  de Ana Tércia Rosa Alves e Weiny César Freitas Pinto.
  2. Educação como mercadoria? Ciências Humanas em tempos de metodologia Steam,  de Bruna Mariane Gomes de Camargo, Juarez Moreno de Camargo e Silva e Pedro Damasceno Uchôas.
  3. Dizer ‘não’ é um direito? A diferença entre seguir a consciência e protestar, de Gabriel Filipe Rosa Alves e Tiago Koutchin.
  4. Sobre o direito de ir e vir, como mulher, de Maria Clara de Freitas Barcelos e Maíra de Souza Borba.
  5. Quando o desejo silencia: apagamento de si e suicídio entre universitários, de Tayna Schoeffel Rodrigues, Beatriz Gomes Cruz e Natasha Garcia Coelho.
  6. O fim do outro entre o toque das telas , de Carlos Busón Buesa e Weiny César Freitas Pinto.
  7. Travesti é substantivo coletivo: o que a cultura ballroom ensina sobre a vida, de Jolie Gregório Caetano e Jeferson Camargo Taborda.
  8. “Pensar com as mãos”, de Luiggi de Barros Cestari e Pedro Damasceno Uchôas.
  9. A ilusão da neutralidade: afeto e ética na formação do psicólogo sob a perspectiva psicanalítica, de Giovana Santos e  Alexsandro Nobres de Moura.

Tag's: filosofia, Parmênides, Platão

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